Albuquerque, Fabiane / Escritor
O não dito é a principal causa de morte no Brasil. Ele é agente de AVCs, infartos, depressões, ansiedades, esquizofrenias, drogadições, alcoolismos, assassinatos, suicídios. O não dito é um sintoma social que não passa, uma dor, uma doença que não se cura. E, evidentemente, nesse não dito, cabem inumeráveis memórias de histórias e dores transgeracionais de um Brasil concebido no laço e no relho de ventres infantis, impedidos ao aborto e forçados a gestar um arremedo de nação.
O Brasil é um território sem afeto e, por isso, sem povo; emudecido e, por isso, sem memória; torturado e, por isso, sem desejo. E é na contramão do esvaziamento e da morte que a narrativa de Fabiane Albuquerque emerge como um berro. Poderia chamar de grito, mas, o que cabe aqui é o berro. Um som desesperado que tenta dar significado ao que sequer sabe o que é, ainda. É raiva? É ódio? É revolta? Não sabemos. Mas, indiscutivelmente, é impossível não ouvir esse brado que faz nascer o sujeito daquilo que está historicamente abjeto.
Os meus mortos pedem nomes não é apenas um livro, é um ritual de invocação. Fabiane Albuquerque ousa, a partir do seu ebó em forma de narrativa, trazer ao estado de individuação a massa disforme de almas negras e indígenas feridas que, destituídas daquilo que nos faz humanos o reconhecimento vaga errante à margem da História. Aqui, não jazem mais escravos. Mas nascem histórias.
Em Os meus mortos pedem nomes, o berro se torna brado de revolta, a carne se torna palavra e a ferida aberta se cura. Agora, nomeadas as dores e reconhecidas as memórias, enfim, os nossos mortos poderão viver através de nós e, assim, descansar. E nós, quem sabe, poderemos sonhar! Narrado o passado, enfim, podemos construir um presente e ter um futuro onde Brazilina, Lurdes, Maria Eulália, Conceição, Alice, João, Abel, Aminto, Avelino, Antônia, Jorge, Miguel, Isabel, Rosineide
Possam ser concebidos do consentimento e do amor, nascer e serem cuidados, crescer e serem amados, envelhecer e serem colocados com carinho na cama quentinha. Um futuro onde nós, que hoje narramos histórias, possamos ser mais que recordação, mas relicários nas existências de alguéns com nome, sobrenome e lembrança.