Antonangelo, Anderson / Escritor
Derivações pode ser lido como um livro de contos sobre busca; busca pelos que não estão mais lá, por respostas a perguntas há muito reprimidas, pela redenção de impulsos que não conseguirÃamos conter, pela possibilidade de fazer as pazes com o luto ou dar risada da pior desgraça.
Pode também ser lido como uma coleção de contingências, em que a curiosidade e o imprevisÃvel atravessam pessoas, nacionalidades e perÃodos históricos, sejam esses reais ou imaginários. Em um sutil jogo de luz e sombra, é difÃcil saber quando se ri ou se chora.
Sentar-se com o Derivações é preparar-se para uma partida de pinball: diferentes partes do nosso córtex irão se acender, e emoções diversas vão apitar por reflexo antes que possamos ordená-las. Mudam as quebras de linha, mudam os tempos, mudam os registros e os estilos de pontuação. Muda o peso dos personagens, que vão desde uma mosca da fruta pesando um mero miligrama aos quatrocentos e dez quilos de um boi-almiscarado e exausto.
Exaustos também estão muitos dos seus homens e mulheres, que se tensionam e se contrastam, incautos, com o frescor dos jovens e da descoberta. Compassivos, entorpecidos, esperançosos ou derrotados, todos os seus personagens parecem carregar em si o poder de se virar a qualquer momento e olhar para dentro de nós.
O leitor de Anderson Antonangelo é convidado a passear pelas suas inquietudes, sua curiosidade e o seu olhar atento ao singelo, ao vulnerável, ao mundano, que nos conduz a ver humor na tragédia e beleza num filete de suor ou na fumaça de um cigarro. Ele nos leva a prestar tributo não à vida ou à morte, mas à própria transitoriedade que habita entre esses dois parênteses.