Tenório, Jeferson / Escritor
Joaquim não tem mãe — morreu jovem — nem pai — dele, nunca soube nada. Vive com uma avó doente, Dona Joelma, outrora mulher livre e dona do seu nariz, que, dia após dia, perde a memória e o raciocÃnio. Apaixonado por literatura, Joaquim ingressa no curso de Letras de uma universidade de Porto Alegre, no âmbito do sistema de cotas destinadas à s minorias.
Para lá chegar, há que passar horas feito sardinha nos transportes, mas isso não o demove, tal a força da sua vontade e a ambição dos seus planos. Nos sussurros dos corredores, escuta códigos que não entende, sente na pele o estigma que nunca o abandonará, e cedo percebe que aquele não é um mundo para quem vem de onde ele vem. Dilacerado entre realidades opostas, esmagado pelo estigma de uns e a expectativa de outros, atormentado pelos sonhos desfeitos em ilusões, Joaquim cai numa espiral de descrença. A réstia de esperança reside no apelo da palavra.