Csalog, Rebeca / Escritor
Abrir Caderno de Constrangimentos pela primeira vez é segurar um bilhete para uma exibição da mais canónica experiência feminina, que é o embaraço. Nesta primeira publicação de ficção desde a adolescência, Rebeca Csalog ordena o seu imaginário em histórias que, mais que pequenos contos, se lêem como cenas que se desenrolam no tempo real da leitura. Apresentam-se elaborados dioramas de constrangimentos, reproduções exatas dos lugares mais incómodos da mente. A autora extraiu, construiu e dispôs as encenações iluminadas por focos em corredores escuros; depois sabotou-as, em protesto a si mesma e à s vivências colaterais que teimam em se prender na memória —como a omnisciente crueldade da infância; adolescência transpirada de vergonha; ou a famÃlia nuclear. A cada leitor/a de Rebeca Csalog oferece-se esta mesma experiência de exposição e sabotagem; a vertigem de se dissolver o vidro protector e de cair para dentro de um diorama que se mostra acolhedor primeiro, perigoso em segundo. Ao longo de cada engolir em seco, os constrangimentos titulares aguentam-se em suspensão, de cena em cena, aguçados como estalactites. Rodeada pelos objectos desses lugares, molhada pela chuva insolente de Portugal, resta ao leitor replicar o acto final da experiência e assumir-se cúmplice da inevitável sabotagem; imbuÃdo da perversidade de voluntariamente trilhar um percurso que anuncia um descarrilamento, ou do penoso prazer de se viver como mulher.